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terça-feira, 29 de setembro de 2015

PRAZERES EM PERIGO DE EXTINÇÃO

PRAZERES EM PERIGO DE EXTINÇÃO


PÉS DESCALÇOS

por Barbara Holland em "Endangered Pleasures"

Dois em cada cinco adultos tiram os sapatos sempre que podem, e os outros três não parecem importar-se com os pés sufocados.
Cheguei a esta conclusão através da minha própria família. 
Eu e um dos meus irmãos andávamos descalços, mesmo no Inverno, ouvindo contìnuamente a voz da nossa mãe dizendo: 
"Não tens os pés frios?" 
E "Onde estão os sapatos?" 
E "Calça alguma coisa!" 
Os nossos três irmãos usavam sapatos. Ou sandálias. Ou chinelos. Ou, às vezes, apenas meias, mas sempre com alguma coisa que tornava os pés surdos e cegos. 
Não sei se haveria ou não um componente genético envolvido.
Eu e o meu irmão não hesitávamos muito em tirar o resto da roupa; nós não usávamos  sapatos que não fossem práticos; os sapatos não nos magoavam os pés; não procurávamos  alívio para o aperto. 
É que estávamos sempre conscientes e cientes de tudo o que nos envolvia a partir de  baixo, mas tínhamos uma mão leve, contudo inamovível, a tapar as nossas bocas. 
Para nós, e para outros como nós, o momento de tirar o calçado é um alívio e uma alegria, e, no Verão, com os pés descalços durante horas, ao longo de dias, as nossas personalidades mudam. 
Descalços, estamos quase sempre em paz. 
Somos gentis e tolerantes com o nosso semelhante. 
O stress e a ansiedade evaporam-se, e a própria tristeza parece suportável, desde que os pés estejam livres.

...

Para alguns de nós, a alma localiza-se na planta dos pés, e anseia sem cessar por luz, ar e auto-expressão. 
Os nossos pés são o que nós somos. 
O toque do piso ou do tapete, da relva, da lama ou do asfalto, fala-nos alto e bom som a partir do pé, desprezado e humilde órgão, tão querido para nós como os olhos e os ouvidos.

...

Talvez o mundo inteiro secretamente entenda que os pés livres produzem uma mentalidade diferente, mais filosófica, relaxada e sem sistema nem método. 
Sem calçado, as ambições desapareceriam, as práticas comerciais pareceriam desmesuradas, os atritos internacionais pareceriam loucura. 
Os exércitos deitar-se-iam para uma sesta.
...

À luz disto, andar descalço é quase tanto um vício como um prazer. Subversivo. Contraproducente, como fumar cannabis.
...

Sim, mãe, os nossos pés ficarão frios durante algum tempo. 
E sim, nós corremos o risco de, em casa, pisar cacos de vidro quebrado e, là fora, abelhas no meio do trevo. 
Como se diz no Pentágono, é um risco aceitável. 
Altamente aceitável!

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